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Parabéns Salvador!

Atualizado: Mar 31


Salvador 471 anos: Kirimurê da lenda Tupinambás nasceu nossa Roma Negra

Reza a lenda que, um pássaro de plumas brancas emergiu do centro do universo e repousou no oceano Atlântico, no coração do território Tupinambá, sua transmutação deu origem ao que hoje conhecemos como Baía de Todos os Santos. Essa terra de todos os encantos e axé foi batizada em 01 de Novembro de 1501 pelo explorador de oceanos, Américo Vespúcio a serviço da coroa hispânica, a denominação Baía de Todos os Santos faz uma alusão ao calendário católico.

... Avistando seu almejado desiderato, despencou e morreu. Suas asas transmutaram-se em idílicas praias e, derradeiro bater do seu coração, abriu uma grande depressão, que inundada pelas águas marinhas, deu origem a uma Baía paradisíaca, o “grande interior” dos Tupinambás. Kirimurê! Que, mais tarde, em 1º de novembro de 1501, Américo Vespúcio, batizaria de Baía de Todos os Santos. (Antonio Pereira Apon)

A terra que antes abrigava os povos originários Tupinambás “cablocos” tinha sua própria forma de organização social, pautada culto da ancestralidade denomina-se povo guerreiro na defesa de seu território, liderado pelo chefe de guerra o xamã, essa característica permitiu resistir e impor limites a colonização cristã. O tronco linguístico tupi-guarani, remete-nos a reflexões de pesquisadores sobre a origem do nome KIRIMURÊ. Segundo professor José Baiana, Kirimurê é uma grafia errada de Karamuru, na visão do pesquisado Antônio Rosário, Kirimurê era como os Tupinambás denominavam o território Salvador, sendo Paraguaçu a Bahia em sua dimensão como todo. Porém, entre teses e teorias nos encantamos a cada dia com essa diversidade da nossa Bahia.

A beleza natural deslumbrava os colonizadores, esses tiveram a missão de implantar na capital o pólo político-econômico pela sua posição geográfica. Mais tarde, Salvador torna-se a uma cidade estratégica pela sua atraente arquitetura, receita de lucros e sua rota comercial. O tráfico transatlântico possibilita desembarque do grande número de pessoas de diferentes partes da África. Nossas raízes balançam entre os traços da Guiné e de Angola, são os traços da culinária, da dança, dos tambores, nas características fenotípicas do nosso povo.

... África, iô iô, Salvador minha cor. A raiz de todo bem, de tanta fé. Do canto ao candomblé... (Saulo Fernades)

O impacto da migração compulsória entre mulheres, homens livres, escravos, ex-escravos, resultou na formação da presença de uma maioria negra na sociedade. A ocupação dos bairros antes conhecidos como “freguesias” é o caracteriza essa formação da população local. É válido destacar a importância de duas freguesias, quais carregam suas particularidades arquitetônicas de ocupação, na atualidade. A freguesia da Sé era a mais populosa, onde concentrava os principais edifícios, também as principais igrejas, localizava administração geral do governo, residiam os homens poderosos. Hoje conhecidos centro histórico, marcado pelo seu valor turístico. Já a freguesia da Conceição da Praia é marcada pelos seus mercadores, negociantes, local estratégico da cidade baixa, ponto de rota de comércio. Era a parte da cidade marcada por uma massiva presença negra.

Essa herança é perceptível na nossa Roma Negra atual, a distribuição do nosso povo pela cidade. A freguesia da cidade baixa, ainda é marcada pela concentração de um povo negro aguerrido apesar da disparidade social. O espaço geográfico se divide entre comerciantes, aqueles que preservam o comércio na região, moradores negros que herdaram a ocupação dos casarões tombados como patrimônio histórico cultural.

Essa gente tem a capacidade de resignificar o espaço, a cultura, a linguagem, o ritmo que requer sua valorização enquanto patrimônio simbólico identitário. Uma peculiaridade de “baiananidade” na sua “maremolência”, no seu gingado.

... Eira beira mar, onde era mata hoje é Bonfim. De onde meu povo espreitava baleias. É farol que desnortea a mim. Eira beira mar... (Kirimurê, Maria Bethânia)

A Roma Negra é muito singular na sua existência, a cidade mais negra fora da África é também de maioria feminina. Apesar de invisibilidade sistemática, das distorções nos livros de história. A Baía dos encantos existe ao longo de sua formação identitária,uma frente de mulheres negras que resistem e lutam pelo reconhecimento desse legado ancestral, de Carolina Maria de Jesus, Tia Ciata, Esperança Garcia, Makota Valdina, Mãe Estela de Oxóssì, Mãe Menininha dos Gantois . Essas yabás que carregaram na luta cultural, o grito negro de resistência para desconstruir a herança do patriarcado, ou seja, o domínio do poder branco, centralizador em suas estruturas sociais e institucionais. Hoje nesses 471 anos, que possa renascer no coração de cada um, o grito de liberdade como o pássaro que deu origem a Kirimurê.


Texto: Ana Paula Ramos

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